quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Oito da noite, numa avenida movimentada. O casal já está atrasado para jantar na casa de uns amigos. O endereço é novo e ela consultou o mapa antes de sair. Ele conduz o carro. Ela orienta e pede para que vire, na próxima rua, à esquerda. Ele tem certeza de que é à direita. Discutem. Percebendo que além de atrasados, poderiam ficar mal-humorados, ela deixa que ele decida.

Ele vira à direita e percebe, então, que estava errado. Embora com dificuldade, admite que insistiu no caminho errado, enquanto faz o retorno. Ela sorri e diz que não há nenhum problema se chegarem alguns minutos atrasados. Mas ele ainda quer saber:
'Se tinhas tanta certeza de que eu estava a ir pelo caminho errado, devias ter insistido um pouco mais...'
E ela diz:
'Entre ter razão e ser feliz, prefiro ser feliz. Estávamos à beira de uma discussão, se eu insistisse mais, teríamos estragado a noite!'

desconhecido

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Welcome to the brave new world of international credit and debt!

Prof. Jan Toporowski

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Os mortos recebem mais flores que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão.

Mac Anderson

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar.. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Cada día al despertar nos dan dos opciones:
Volver a dormir para seguir soñando... ó salir de la cama y cumplir los sueños.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um dia eu vou acordar e lembrar-me de nós os dois e do nosso melhor dia. Não vou acreditar. Vou achar que foi só um sonho bom daqueles que se encerram pela manhã. E vou contar-te, como das outras vezes. Mas dessa vez tu vais sorrir e dizer com a voz mais doce do mundo: não foi um sonho.

João Pedro Bueno, Sabedorias

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser.

Herman Hesse

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O que é que ela estará a fazer neste momento? Estará o mesmo calor? Será o mesmo dia? (...) Porque é que estas coisas me fazem falta? Quantas vezes fazemos esta pergunta? (...) E os meus pais? Como estará o meu novo sobrinho? E o velho?

É bom saber que é o mesmo céu, que esta lua brilha em Portugal, que as marcas de whisky e as séries americanas que dão na televisão são iguais. O resto é que é pior. Raio de vida. Porque é que as partidas são sempre tão preocupantes?

O tempo que passamos longe das pessoas de quem gostamos é interminável desde o dia em que nascemos. O mundo havia de ser mais pequeno. Só devia haver um país, um liceu, uma empresa, uma rua na única cidade que houvesse. Portugal é enorme. É grande de mais. Do mundo nem se fala.

Contam-se os minutos. Contam-se os quilómetros. O mundo está mal organizado. Os desconhecidos abundam. Telefonam. Aparecem. Os motoristas de táxi ocupam uma larga parte das nossas vidas. Os recepcionistas. As pessoas que nos perguntam as horas. Estupidamente, em nome da vida, ou de uma ideia de vida, perdemos o tempo que temos. Há pessoas com quem queremos estar, que querem estar connosco. Não são estas. O meu sobrinho nasceu no dia 10. Porque é que ele não pôde nascer aqui ao pé de mim?

(...) Aprendemos desde pequenos que as saudades são coisas boas. Vem nos livros. Conhecemos os poemas de cor. Se a alma dói, dizem-nos que é sinal que se tem qualquer coisas no peito com que doer. Se nos lembramos sem nos querermos lembrar de uma mão que não podemos agarrar, a deixar cair um cigarro, dum cais, dum riso, dizem-nos que isso é bom, que é uma prova de amor. É como dizer que deitar sangue da cabeça quando se bate com a cabeça no chão é bom, porque é sinal de que se está vivo.

(...) Balelas! Podemos protestar, sim senhor! A saudade não é maravilha nenhuma: é apenas o sinal de que há qualquer coisa que não está bem. Há alguém que não está onde devia estar. O país é errado. A pessoa com quem jantamos é um engano. Saímos à rua e somos rodeados por sobrinhos de outras pessoas. Apanhamos um autocarro cheio de raparigas e nenhuma delas é seguramente a rapariga em que estamos a pensar. Chove. Anda tudo trocado. Onde estão os meus amigos? E os seus? Passamos a vida a apanhar aviões mentais uns para os outros. Caímos no oceano. Morremos de saudades. Isto não pode estar certo. Se isto estiver certo, nós não estamos bons da cabeça.

Os Portugueses gerem a saudade como um tesouro. Fazem-na render. Gostarão de sofrer? Claro que gostam. Se estão a penar por saudades de alguém vão buscar fotografias, reler cartas, ouvir discos antigos. Passa-lhes pela cabeça ir ter com essa pessoa? Não. Matar uma saudade é quase um crime. Os Portugueses produzem saudades como os coelhos produzem coelhinhos. Exportam-nas e importam-nas. As saudades são as especiarias finas do comércio sentimental português. Os Portugueses espalham-se pelo mundo como quem espalha a confusão. Descobrem, emigram, retornam e tornam a emigrar. Deixam pessoas onde não as deviam deixar. Está mal.

(...) A saudade é uma extravagância. É amor que se gasta sem proveito. Ninguém aproveita - quem é que aproveita tantas lágrimas? É como acender cigarros com notas de conto. Só que não se acende cigarro nenhum. (...)

Se calhar as pessoas que gostam umas das outras deviam viver nos mesmo prédios. Podia montar-se um sistema de trocas. Não há razão para viver tão separadamente. Havia a célula do Funchal, a célula de Alcobaça, et caetera. A distância é uma asneira romântica. Quem nos dera desconhecer todos os desconhecidos que nos aparecem pela frente. O tempo é uma coisa gasta. Metade do que dizemos não se ouve. O amor, que deveria ser principal e governar tudo o que fazemos, é uma distracção. A saudade não o substitui. (...)

Os Portugueses deviam abolir a saudade. A saudade não é um estado acabado. É uma coisa que se resolve. Apanha-se um comboio, um avião, um dromedário que seja. Atiram-se os braços para a frente, agarra-se a pessoa de que se precisa e pronto. Está entregue. O coração é um objecto só. Está feito para ter e fazer companhia. Senão não funciona. Definha- Amarga. Desacredita-se.

A saudade é um disparate, um estado de excepção, uma coisa passageira que se tem de curar. É uma anemia. É um parafuso a menos. É falta de vitaminas. Os Portugueses não deviam encoraja-la. Havia de ser proibido - ou pelo menos muito difícil - viajar. É insuportável ter filhos, amigos, sobrinhos e não os ter. É inadmissível ter olhos e não os poder ver. É um erro. Somos uns panhonhas.

Não quero mandar recados nenhuns, palavras nenhumas. Nem recebe-las. O telefone é um suplício. As cartas são só recibos de sentimentos. Passamos a vida longe das pessoas com quem queremos viver - e elas longe de nós - em nome de uma coisa qualquer a que chamamos a nossa 'vida'. A vida que se lixe. O que é que ela estará a fazer neste momento?

Miguel Esteves Cardoso

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas ás vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

E com o mundo nas veias, eu irrito-te e tu irritas-me também.
Irritados, fingimos não perceber que o mundo só se irrita tanto connosco por saber que podemos ser irritantemente felizes.

Lara Franco